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“Deficiência e beleza não são opostos”, afirma dona de agência para modelos com deficiência

Provando que beleza e deficiência não são conceitos opostos, a fotógrafa Kica de Castro resolveu abrir, no ano de 2007, uma agência de modelos voltada para pessoas com alguma deficiência.

Motivada a mudar as perspectivas daquelas pessoas que haviam perdido a autoestima, Kica, que começou com apenas cinco agenciadas, hoje já cuida de 81 modelos deficientes físicas, visuais, auditivas e intelectuais em todo o país, que fazem editoriais de moda, campanhas de grifes e desfiles.

 Através das suas lentes inclusivas, a profissional diz que onde muitos enxergam o preconceito, ela vê beleza e sensualidade.

Confira abaixo a entrevista que o Virgula Lifestyle fez com a fotógrafa e proprietária da agência:

Como surgiu a ideia de abrir uma agência especializada em pessoas com alguma deficiência?

Kica – No ano de 2002 fui trabalhar como chefe do setor de fotografia de um centro de reabilitação para pessoas com deficiência física. As fotos eram apenas para artigos e prontuários médicos, ou seja, não existia arte nessas fotografias, o foco eram as deficiências e não as pessoas. Para o corpo clínico tem muita relevância, mas para o paciente era uma verdadeira invasão de privacidade. Muitos entravam com cabeça baixa e na hora do registro fotográfico muitas lágrimas rolavam.

E foi através de uma conversa com uma amiga que resolvi mudar as perspectivas daquelas pessoas. Na manhã seguinte levei espelho, pente, gel, maquiagem e muitas revistas de moda para o setor da clínica e transformei a sala em um estúdio. Fazia a proposta para o paciente: “vamos fazer um editorial de moda!”.No lugar de lágrimas, comecei a ver sorrisos. Com o tempo, os pacientes começaram a me procurar para fazer um book pessoal e em 2007, montei minha agência. 

Qual a reação dessas pessoas quando conferem o resultado do seu trabalho? 

Kica – Muitos ficam surpresos em descobrir a própria beleza e me perguntam: “Nossa, sou eu mesmo?”. Eu nunca uso nenhum recurso do Photoshop, sempre valorizo a real beleza. Os únicos recursos usados são as técnicas fotográficas, como iluminação, o look ideal e a maquiagem, sem ser carregada.

Déborah Fontenele associada na ADFEGO


É feita alguma adaptação para as suas sessões de fotos?

Kica – Procuro explorar ao máximo todos os ângulos, além de caras e bocas, como em qualquer outro editorial. Mas uso os aparelhos ortopédicos como um acessório de moda. Quando necessário, o que também faço é ajudar o modelo a fazer alguma pose. Quando exige muito esforço físico do modelo, antes de fazer uma nova pose damos um intervalo básico, um tempo para dar uma respirada e tomar uma água.

A maioria faz o book fotográfico por uma questão pessoal ou profissional?

Kica – Muitos fazem para guardar de recordação ou como uma maneira de aumentar a autoestima. Mas posso dizer que hoje em dia os que mais me procuram estão em busca de uma carreira profissional e de uma oportunidade de trabalho. Esses passam por um processo de avaliação, para ver onde podemos encaixar cada perfil. Recebem orientações quando não estão devidamente preparados. Ressalto, como qualquer outra profissão é preciso estudar, dedicação além de uma dose de paciência, pois ainda não é possível para esses modelos viver apenas do trabalho de modelo. Todos os dias, estamos lutando para ampliar essas oportunidades, tentar diminuir o preconceito e levar informação para as pessoas. 

Algum dos modelos que fizeram fotos com você já conseguiram trabalhos profissionais?

Kica – A maioria dos modelos agenciados já conseguiu. Desde a abertura da agencia, nosso foco tem sido o mercado de trabalho fashion e as campanhas publicitárias.

Você acredita que ultimamente a moda tem sido mais inclusiva?

Kica – A moda tem sido bem democrática e ultimamente tem abraçado ainda mais a diversidade. Afinal, existe um mercado de consumo para 45 milhões de pessoas com alguma deficiência, que gostam de cuidar do visual em todos os aspectos, incluindo estar de acordo com as tendências de moda, com roupas que valorizem o corpo. Vendo isso, muitas estilistas começaram a fazer roupas adaptadas e de acordo com a necessidade de cada um.

No site da sua agência, a fotógrafa disponibiliza alguns dos seus trabalhos e os contatos para quem estiver interessado.

 

Fonte: virgula.uol.com.br